Parece que vai chover… – dizia um, assomando-se ao postigo, mal clareava a manhã.
– Não me admiro… – respondia outro que passava, rematando de pronto a conversa.
Nesta austeridade de trato, mais aparente que real, conviviam as gentes alentejanas presentes neste li¬vro em povoações espalhadas pela planície, dependentes quase só da agricultura e dos gados.
Aí decorria um tempo denso, fechado, repetido ano após ano.
Tempo tão vagaroso que parecia não correr. De verões enormes e invernos de grande crueldade que as populações aceitavam como podiam não esperando ajuda caída do céu.
Muitas histórias, contadas e recontadas, preenchiam as curtas paragens no trabalho, aproveitadas pelas mulheres mais velhas para descarados apartes que faziam corar o branco das paredes.
* * *
O maltês podia ser mal visto, mas para lá da sua figura maldita, não deixava de ser uma testemunha, talvez a mais misteriosa e controversa, da crueldade a que foi votada a classe camponesa alentejana em período não longínquo. Se, na verdade, abandonou os que lutavam na arena da fome e sozinho se perdeu numa fome mais humilhante, muito injusto seria considerá-lo somente como um pária. Apesar de não ter aguenta-do a pressão a que a maioria dos seus companheiros se viu sujeita, o preço que pagou pela fuga às fileiras foi muito elevado. Nem sempre os malteses foram maus, nem sempre varridos de sentimentos e muitas vezes foram heroicos a enfrentar o desprezo e a solidão.
| ISBN | 9789895665747 |
|---|---|
| Ano | 2026 |
| Número de páginas | 178 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Colibri |
| Categorias |
Livros > Literatura
João Mário Caldeira
Licenciado em História pela Universidade de Lisboa. Professor aposentado. Lecciona História nas Academias Seniores de Serpa e Moura. Colabora ocasionalmente em publicações periódicas. Participa com alguma frequência em sessões relativas à História e à cultura local. |


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