«[…] o que mais me importa […] é aquilo a que hoje se chama a «dívida externa» que, para mim, é um sinal […] do estado do mundo. A dívida externa é aquilo que alguns Estados devem a outros Estados […], a Estados ricos e desenvolvidos – dívida que esfaima, que empobrece em permanência as economias destes Estados ditos pobres. É um mecanismo de capitalismo entre Estados que faz com que certas economias não possam desenvolver-se em certos Estados-nações em razão dos interesses da dívida dita externa a pagar. É uma tragédia planetária, e eu interesso-me por ela mesma, mas também pelo que ela indica da opressão económica entre os Estados-nações. Evidentemente, a questão do direito internacional é também a destes mecanismos da economia mundial, do mercado mundial que, sob a autoridade incontestada, ou muito raramente contestada, desta lei do mercado, dos bancos do Estado, dos mecanismos de endividamento, aprofunda a desigualdade e a dissimetria entre os homens no planeta. E enquanto o direito internacional, as instituições internacionais – que eu não critico aqui nelas mesmas e às quais presto homenagem – não se transformarem na sua missão, nos seus textos, nas suas práticas, para remediar estes mecanismos de escravização, todos os discursos sobre os Direitos do Homem, sobre a igualdade e a fraternidade serão ou alibis ou hipocrisias.»
Palavras Nocturnas, p. 100-101
«[…] a Desconstrução designa, antes de mais, um pensamento, um idioma de pensamento filosófico ligado à obra, à assinatura e ao nome de Jacques Derrida (1930-2004). Um idioma de pensamento filosófico dotado de pressupostos específicos – os da différance ou do rastro: khôra e messiânico – que consubstanciam uma espécie de matriz teórico-filosófica, que o singulariza. […] No deserto filosófico crescente dos nossos dias, em que abundam as atitudes meramente dóxicas ou ideológicas, a Desconstrução afigura-se-nos uma chance para o pensamento – para a vida do pensamento e para o bem-viver ou o mais justo viver-juntos neste mundo.»
A Desconstrução, p. 143-144, 146.
| ISBN | 9789897033100 |
|---|---|
| Ano | 2024 |
| Número de páginas | 212 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Palimage |
| Coleção | Skiagraphia’s |
| Categorias |
Livros > Ciências Sociais e Humanas > Filosofia
Jacques Derrida
Jacques Derrida (1930-2004) é o filósofo da Desconstrução – talvez o mais radical, justo, afirmativo, re-inventivo e difícil dos idiomas filosóficos: justíssimas nos parecem por isso as palavras que Dominique de Villepin endereçou ao filósofo, a 25 de Maio de 2003, na Universidade hebraica de Jerusalém aquando da sua recepção de um Doutoramento honoris causa: «Jacques Derrida, o senhor volta a dar densidade às palavras mais fortes e mais simples da Humanidade […] O senhor está na primeira fila daqueles que abriram a via de um pensamento novo. […] A “Desconstrução” é a démarche atenta, escrupulosa, de um pensamento que se forma à prova do seu objecto. Démarche eminentemente criativa e libertadora. Desfazer, sem nunca destruir, para ir mais longe. […] O senhor situa-se na linha dos intelectuais da honra, ciosos de universal, no caminho aberto por Voltaire, Bernanos, Zola ou Sartre.» Para além da sua docência, primeiro na Sorbonne, de 1960 a 1964, depois na École Normale Supérieure de Paris, de 1964 a 1984, e na École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, de 1984 a 2003, Derrida também desenvolveu uma intensa actividade docente um pouco por todo o mundo, tendo sido Professor convidado de várias universidades [nomeadamente, Berlim, San Sebastian, John Hopkins, Yale, Cornell, New York University, New School for Social Research, UC Irvine, Cardozo Scholl of Law, …] e tendo também herdado a cátedra de Hans-Georg Gadamer na Universidade de Heidelberg. Doutor Honoris Causa por mais de duas dezenas de universidades, incluindo pela Universidade de Coimbra, em 2003, Derrida acordara também encerrar anualmente o Seminário de Mestrado na área da Desconstrução na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Da sua obra imensa, que atravessa, repensando e reinventando, todas as áreas dos saberes e das artes, lembramos aqui alguns dos títulos traduzidos entre nós: Margens da filosofia (1972); “O Outro Cabo” (1998); “O monolinguismo do outro ou a prótese de origem” (2001); “Da Hospitalidade” (2003); “Políticas da amizade” (2003); “Força de lei : o ‘fundamento místico da autoridade’” (2003); “Morada : Maurice Blanchot” (2004); “O Soberano Bem / Le Souverain Bien” (2004); “Aprender finalmente a viver” (2005); “Carneiros. O diálogo ininterrupto: entre dois infinitos, o poema” (2008); “Vadios” (2009); “Memórias de cego : o auto-retrato e outras ruínas” (2010); “Dar a Morte” (2013); “Idiomas da Diferença Sexual” (2018). |


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