Mas volto ao desencanto. O livro que o leitor tem perante si é, visivelmente, fruto de um trauma e dos estados de alma dele resultante. E isso torna-o num livro muito autêntico, nada “tático” com a revelação da realidade dos factos, tal como o autor os observou ou pressentiu. Se me é permitida uma simplificação, diria que este texto é a expressão do choque de alguém que partiu com imensa boa vontade e entusiasmo para uma tarefa, a que se entregou com sinceridade e abertura, e que se deparou, para além das insuficiências do próprio país que o enviava, com um mundo concreto feito de agendas diferenciadas, algumas conflituais entre si, construídas de cinismo e de “realpolitik”, se é que um termo não é necessariamente sinónimo de outro. Não que isso não fosse em absoluto expectável, mas o grau e a natureza dessa realidade induziram claramente no autor algumas surpresas, na maioria dos casos menos agradáveis. Este trabalho é a imersão nesse mundo de sombras, de sinais cruzados e deliberadamente equívocos, de cumplicidades e conluios, onde a miséria da guerra vem sempre ao de cima, tudo sobredetermina, com uma crueldade que às vezes a redondeza do discurso político procura iludir.
[FRANCISCO SEIXAS DA COSTA].A experiência na antiga Jugoslávia despertou-me intelectualmente para as questões das operações de paz e da resolução de conflitos. Se não tivesse tido a oportunidade de observar este conflito em primeira mão, teria seguramente formado uma opinião sobre o comportamento dos seus atores, tanto internos como externos, muito diferente daquela que formei, provavelmente até diametralmente oposta. Foi uma oportunidade para me aperceber das subtilezas da verdade. Verifiquei que muito daquilo que eu julgava saber estava errado, ou pior, eram meias verdades.[…] Este livro é um testemunho pessoal, tanto de acontecimentos vividos em primeira mão, como de ocorrências em que estive indiretamente envolvido. É uma compilação de estórias que vivi e por que passei organizadas cronologicamente (tanto quanto possível). Nenhum dos factos relatados é ficção. A descrição daqueles em que não participei diretamente baseia-se, na maior parte dos casos, em relatórios ou em entrevistas com as pessoas que estiveram diretamente envolvidas. Apesar deste trabalho não ter a pretensão de ser um exercício académico, nem uma incursão na história do conflito poderá contribuir, contudo, para a sua melhor compreensão ao proporcionar mais uma leitura dos acontecimentos.
| ISBN | 9789896896102 |
|---|---|
| Ano | 2026 |
| Número de páginas | 286 |
| Edição | 4 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Colibri |
| Categorias |
Livros > Ciências Sociais e Humanas > História
Carlos Branco
Carlos Branco foi diretor da Divisão de Cooperação e Segurança Regional, do Estado-Maior Militar Internacional (IMS), no quartel-general da NATO, em Bruxelas (2010/2013). Nessa qualidade foi responsável pelo planeamento estratégico da cooperação militar da NATO com os seus então 41 países parceiros localizados na Europa Oriental, Cáucaso do Sul, Ásia Central, Sudeste Asiático, Norte de África e Médio Oriente que integravam os diferentes quadros de parcerias da Aliança (Parceria para a Paz, Diálogo Mediterrânico, Iniciativa de Cooperação de Istambul e Parceiros à volta do Mundo). Liderou o desenvolvimento dos programas bienais de cooperação militar da NATO, em particular os da parceria estratégica NATO-Rússia e os parcerias distintas («distinctive partnerships») Ucrânia e Geórgia. Nesse âmbito liderou a elaboração dos planos de trabalho do NATO-Russia Council – Representantes Militares (NRC – MR), e dos programas nacionais de cooperação com a Ucrânia e a Geórgia. Por delegação, supervisionou a Missão Militar de Ligação da NATO em Moscovo («NATO Military Liaison Mission»), criada em 2002 para apoiar o diálogo e assegurar a ligação entre o Comité Militar da NATO e o Ministério da Defesa da Federação da Rússia. Acompanhou o processo de reforma e modernização das Forças Armadas russas, ucranianas e georgianas. Participou em diversas conferências de segurança na Rússia, Ucrânia e Geórgia, assim como nos países do Cáucaso do Sul e da Ásia Central. Foi palestrante no «Senior Course», do Colégio de Defesa NATO, em Roma, sobre temas relacionados com as parcerias da Aliança. Representou o IMS nas reuniões do NRC (MR) e das comissões NATO – Ucrânia (NUC) e NATO – Geórgia (NGC) no formato de representantes militares. No âmbito das suas atividades trabalhou e privou profissionalmente os responsáveis militares das Forças Armadas da Rússia, da Ucrânia e da Geórgia, assim como trabalhou com os do Cáucaso do Sul e da Ásia Central, regiões onde se deslocou frequentemente. Prestou aconselhamento ao Comité Militar sobre questões relacionadas com a cooperação militar e coordenou as atividades de cooperação militar com o Estado-Maior Internacional da NATO. Apoiou ainda as atividades de reforma do setor de defesa da NATO com os países parceiros, no quadro da Parceria para a Paz, e coordenou as atividades de cooperação militar da NATO com o Estado-Maior da União Europeia. Viveu o reiniciar («reboot») das relações entre a NATO e a Rússia, seriamente deterioradas após a operação militar da Rússia na Geórgia (2008), formalmente restabelecidas na Cimeira da NATO (2010), em Lisboa, assim como o período da política externa ucraniana de neutralidade («Non Block Policy»), na sequência da vitória de Viktor Yanukovych nas eleições presidenciais de 2010. Foi condecorado pelo Ministro da Defesa da Federação da Rússia, em 2012, pelo mérito do seu trabalho no desenvolvimento e implementação da política de cooperação militar internacional e técnico-militar da Rússia com outros países e organizações. |


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