Porque é que a promessa de felicidade se transformou progressivamente num imensopesadelo? Não num pesadelo total, mas mesmo assim pesadelo o suficiente para sefalar reiteradamente de fracasso e falência da aventura da modernidade.
O que é que o homem procura quando procura a felicidade? O que é que o homem encontra quando encontra (ou pensaque encontra) a felicidade? Estas são perguntas sem resposta objectiva. Em boa verdade são perguntas às quais não esperonem esperava responder. Espero, todavia, que através de sucessivas aproximações temáticas aos conteúdos que as perguntassubentendem, quer dizer, aos domínios onde a ideia de felicidade se encontra implicada directa ou indirectamente, de formapróxima ou apenas remota, o tema e os problemas possam dilucidar-se por si mesmos. O esboço de qualquer resposta objectivaàs questões formuladas, para além da ingenuidade de que daria provas, redundaria paradoxalmente num amontoado desentenças, inevitavelmente subjectivas. Em contrapartida, o esforço de contextualização, os rodeios ou digressões teoréticas,o levantamento de paradigmas temáticos adjacentes, o afloramento tópico de orientações existenciais, de perspectivas normativas,de modos de vida ou de formas de comportamento subordinados a princípios ético-morais, etc., tudo isso acabarápor se tornar bastante objectivo. Deste modo, quase que se pode dizer que para se falar (saber) da felicidade interessa falar omenos possível de felicidade, até porque uma fenomenologia do sentimento feliz não é mais do que um momento na abordagemdo tema e dos menos importantes.
[…]A ideia de felicidade, se não é a chave, é seguramenteuma das chaves privilegiadas, talvez a maisprivilegiada, para abrir o imenso segredo da maiorcontradição, paradoxal esta, da modernidade, e quereside no facto de que pensando a cultura modernalevar por diante o grande processo da emancipação,da realização plena da vida humana em cenáriomundano, cavou cenários que se aparentam a formasde escravatura moderna. […]Finalmente, o que de facto penso e já o pensava àpartida é que a modernidade, tal como eu a entendoe tal como salientou Habermas, é apenas um projectoem crise, conjunturalmente interrompido, mas nãoesgotado nas suas potencialidades emancipadoras.[Manuel Afonso Costa]
| ISBN | 9789899006621 |
|---|---|
| Ano | 2021 |
| Número de páginas | 224 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Documenta |
| Categorias |
Livros > Ciências Sociais e Humanas > Filosofia
Manuel Afonso Costa
Manuel Afonso Costa fez o doutoramento no Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e o Mestrado em História Cultural e Política na mesma universidade. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa. Escreveu diversos artigos sobre História, História das Ideias, Filosofia e Literatura em jornais e revistas de especialidade, e é autor dos livros Introdução ao Pensamento Social Francês do Século XVIII (1987) e A ideia de felicidade em Portugal no Século XVIII, entre as luzes e o romantismo. Eticidade, Moralidade e Transcendência (2008). Tradutor de poesia e poeta, pela Assírio & Alvim publicou Seria Sempre Tarde (2019), Memórias da Casa da China e de Outras Visitas (2017) Caligrafia Imperial e Dias Duvidosos (2007) e Os Últimos Lugares (2004). |


Reviews
There are no reviews yet.