Estas memórias que passo agora ao papel, perseguem-me há quarenta anos. Julgo estar em condições de poder afirmar, que numa vida que já vai a caminho dos setenta, um curto espaço de tempo de participação numa guerra em Angola, na companhia de todos a que me juntei naquele Batalhão de Caçadores n.o 532, foi a experiência que mais me marcou ao longo destes anos. E não me esqueço que pertenço a uma das felizes gerações que viveu a alegria única e sublime da revolução do 25 de Abril de 1974. Diz-me a minha mulher que o papel é paciente e permite que qualquer um escreva o que lhe apetece. Podem na verdade estas páginas de que me liberto, não merecerem o interesse que lhes atribuo, mas mesmo com essa dúvida estou feliz por o fazer.
***
De novo a coluna militar avançava nas suas rodas, em picada estreita, e em cada viatura cada um de nós ignorava o que se passava à frente ou atrás e dos lados, a floresta abraçava-nos, comprimia-nos, podíamos colher ramos e afastar os que tolhiam a vista. Senti-me receoso pois sabia que qualquer inimigo que se escondesse nessa mesma floresta me poderia tirar o quico da cabeça, dar-me uma catanada, entregar-me uma granada despoletada, ou até pregar-me um tremendo susto com um grito ou com uma risada.
| ISBN | 9789727727315 |
|---|---|
| Ano | 2025 |
| Número de páginas | 352 |
| Edição | 2 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Colibri |
| Categorias |
Livros > Ciências Sociais e Humanas > História
Nuno Roque da Silveira
Nuno Roque da Silveira nasceu na Chibia, Angola, em 1940. Fez os seus estudos primários e secundários em Lisboa, Barreiro, Algueirão e Lourenço Marques (hoje Maputo). Licenciado pela Universidade Técnica de Lisboa, ainda pensou voltar à sua terra e exercer a preparação obtida com estudos em Ciências Sociais e em Política Ultramarina, mas acabou por fazer uma pós-graduação em Administração Hospitalar, tendo cumprido a maior parte da sua vida profissional como administrador hospitalar. Anteriormente ainda tinha trabalhado numa firma alemã de Dusseldórfia, acompanhando jornalistas, escritores e cientistas alemães, suíços e austríacos em visitas pormenorizadas a todas as regiões das então colónias de Angola e Moçambique. Publicou, nesta editora, Um outro lado da guerra: Zemba, Angola (1963-1964) e Memórias da Guerra Colonial: Na Lunda da Diamange dos Quiocos. Desde 2007 faz trabalho de campo na Feira da Ladra. Comprometi-me a continuar em segundo volume exactamente a segunda parte daquele “Um outro lado da guerra”, mas com o meu batalhão em zona de descanso, na Lunda, depois da atribulada passagem por terras de Zemba, Mucondo e Maria Fernanda. Indo adiantada a compilação, ao começar a descrever as férias de trinta dias a que todos tínhamos direito, e que aproveitei para uma saltada a Lourenço Marques, hoje Maputo, de visita a meus pais e a um irmão que ali viviam, desato a recordar um pouco de toda a minha infância e adolescência, vividas à volta de deambulações por esse mundo colonial português com epicentro numa breve mas riquíssima estadia de perto de três anos naquela cidade. Chamo-lhe Lourenço Marques: Acerto de contas com o passado (1951-1965). |


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